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Tradução: João Carlos Morgado
A palavra Deus não é usada aqui porque é uma palavra abusivamente usada. A palavra Isvara é usada porque não é ainda uma palavra corrente. Não foi sequer entendida ainda. É uma palavra em sânscrito, usada nas Upanisads.
Crença
e conhecimento: a diferença
Existem certas coisas em que acreditamos e outras que entendemos. Não
leva a nada tentar compreender o que se tem que acreditar. O que é
para ser compreendido não está sujeito à crença.
Os Vedas nos dizem que há um céu. O conceito de céu é
um conceito que varia. A existência do céu não pode ser
provada nem refutada. Torna-se portanto uma questão de crença.
É por isso que todas as religiões ligadas à idéia
de um céu são chamadas de fé. A fé cristã
e a fé islâmica são fés porque são religiões
que basicamente têm que ser acreditadas.
Acreditar que irei para o céu não é uma crença
que se possa certificar. Suponha que lhe digam que há um vale de flores
em Badrinath. Não há razão para você não
acreditar nisso porque é algo que você poderá sempre verificar
depois. A sua vida inteira não é nada a não ser uma atividade
baseada nessas crenças verificáveis. A partir do momento em
que você coloca Deus no céu, essa crença se torna não
verificável porque não pode ser comprovada nesta vida. Por outro
lado, quando você vê um pote de barro, isto não é
uma questão de crença. Da mesma forma quando você adiciona
1+1=2, isso não é uma crença. É conhecimento.
Existem algumas coisas em que se precisa inicialmente acreditar para então
depois se explorar a fim de se encontrar a verdade sobre certos fatos. Por
exemplo, a equação genérica de física que faz
uma correspondência entre energia e matéria, e = mc2 . A princípio
deve-se simplesmente acreditar na equação porque, para entendê-la,
uma pessoa precisa estudar Física por pelo menos 25 anos. Só
então a equação não será mais uma questão
de crença para essa pessoa. Será conhecimento. Inicialmente
a pessoa não sabe ao certo mas se agarra a uma crença que fica
pendente a uma futura compreensão. Isso é o que chamamos sraddha.
Apesar do entendimento vir depois, é necessário aprender e explorar
com boa fé.
Nós estamos sempre aceitando várias coisas em boa fé.
Apesar de muitas coisas serem desconhecidas para nós, continuamos a
acreditar em sua existência. Mesmo as coisas que aparentemente conhecemos
podem ser desconhecidas para nós. Por exemplo, mesmo que nós
conheçamos uma flor, a flor pode ainda assim ser desconhecida para
nós. Isso acontece porque a existência da flor é conhecida
mas, ao mesmo tempo, se eu perguntar qual o nome científico
da flor?, você poderá não saber. Porque uma determinada
flor tem uma determinada forma e cor, nós não sabemos. Porque
possui uma fragância específica e assim por diante nós
não sabemos, e a procura por respostas a essas perguntas pode se tornar
infindável.
Toda Jagat ou criação consiste em coisas que conhecemos ou que
desconhecemos. Nós sabemos que o que já está presente
não é uma questão que envolva crença, por isso
você sabe que há espaço, que há um mundo. Você
toma conhecimento destas palavras que você está lendo e você
sabe que elas foram escritas por alguém. Você não vê
quem escreveu estas palavras mas você sabe que ele ou ela existe. Da
mesma forma, quando é afirmado que matéria é igual a
energia, essa é uma afirmação de uma crença ou
afirmação de uma conhecimento? Nós sabemos que a matéria
existe porque a vemos em formas variadas. Exatamente como sabemos que a energia
existe? Energia não tem forma. Nós só sabemos que ela
existe porque, em nossos quartos, o ventilador gira e nossas lâmpadas
acendem. Assim sabemos que a energia não tem forma e que a matéria
toma uma forma. Apesar da diferença de matéria e energia ser
óbvia, não há realmente nenhuma diferença intrínseca.
Por isso é necessária uma equação para se entender
o relacionamento entre matéria e energia. Uma equação
não tem uma existência real em algum lugar definido. Ela existe
apenas na cabeça de uma pessoa para ajudá-la a entender a relação
entre as duas coisas aparentemente diferentes. Da mesma forma, quando você
olha para este mundo você vê apenas Jagat, ou a criação.
Você não vê o criador. Como você sabe que eles estão
interligados? Como ao menos você sabe que existe um criador? Que tipo
de equação você tem para comprovar isso? Apesar de não
haver conexão aparente, uma conexão pode ser vista pelo reconhecimento
da ordem.
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Se é
um carro, o pistão tem seu lugar, o carburador tem seu lugar, o motor
todo tem seu lugar, a porta tem seu lugar, o assento tem seu lugar. Cada parte
tem um lugar e também um papel a desempenhar. Portanto não há
carros ou máquinas fotográficas naturais esperando para serem
colhidos em algum lugar num vale no Japão. Ambos foram criados por
um ser que tinha o conhecimento para tal.
Também quando você olha para o seu corpo, você vê
muito conhecimento envolvido. Olhos envolvem conhecimento, ouvidos envolvem
conhecimento. A própria estrutura do fígado não é
algo simples. É talvez o maior complexo químico do mundo. Dessa
forma, cada órgão possui vários órgãos
dentro de si com cada um deles contendo ainda mais partes dentro de si. Cada
órgão possui um lugar e um papel a ser cumprido. E cada órgão
tem seu próprio lugar na constituição do corpo. Há
muito conhecimento envolvido na criação de somente este corpo.
Portanto o primeiro passo aqui é reconhecer que nesta criação
as coisas são agrupadas de forma inteligente, da mesma forma que no
carro ou na máquina fotográfica. O criador inteligente deste
corpo agrupado de forma inteligente não se restringe à figura
da mãe ou do pai. Mesmo a esses foram dados corpos físicos.
Então eles não são os únicos autores do seu corpo.
Existe um criador além da compreensão. Esse criador tem o conhecimento
e o poder para compor qualquer criação, mas também parece
que tem o material necessário para criar. Pode esse ser inteligente,
o criador, ser também uma pessoa sentada no canto do universo, criando
esta criação? Esse conceito da existência celestial de
Isvara surge por não se questionar adequadamente acerca das relações
de causa e efeito. Quando você vê um produto você naturalmente
reconhece a causa inteligente, como o oleiro para o pote de barro. É
subentendida a existência do oleiro pelo simples fato de haver um pote.
Então, naturalmente, você também reconhece que o oleiro
tem o poder para fazer o pote e que, a não ser que ele tenha algum
material, o pote não vai existir. A Causa material é portanto
tão importante quanto o fabricante e seu conhecimento. Dessa forma
vemos que em cada criação há duas causas: uma é
quem faz e a outra é o material usado. Se um oleiro precisa de material
apropriado para criar o pote, então deve haver também material
apropriado para Isvara. Agora, onde ele encontra esse material? O oleiro encontra
o material na criação mas Isvara tem que encontrar o material
nele próprio. De fato, Isvara é o material. Então somente
pode Isvara criar. Quando vemos como o material se relaciona com outros produtos,
descobrimos que onde há pote, há barro; onde há camisa,
há tecido; onde há a corrente, há ouro. Portanto, onde
há Jagat, há Isvara. Isvara pode existir sem Jagat, a criação,
como o barro pode existir sem o pote. Mas o pote não pode existir sem
o barro. Por isso Isvara existe independente de Jagat mas Jagat não
pode existir se não for o senhor. Em todo o conhecimento, Isvara é
o conhecedor. Portanto, todo Jagat não é nada além de
uma manifestação de Isvara, que é todo conhecimento.
Todo o conhecimento em Isvara se manifesta na forma de Jagat. Por isso há
jnanam, conhecimento, em tudo. E onde houver conhecimento, haverá ordem.
O jagat inteiro não é nada além de ordem. Não
há desordem nenhuma.
Mesmo
em cada aparente desordem, há ordem.
Meu quarto está desarrumado porque eu não tenho o hábito
de jogar fora as coisas. Se existe uma causa então vai haver um efeito.
Se houver uma desordem no seu estômago, você vai ao médico.
Ele perguntará o que você comeu? porque o que quer
que você tenha comido pode ter sido a causa da desordem em seu estômago.
Então essencialmente há ordem pois há uma causa para
a desordem. Todas as causas têm suas causas e essas causas têm
suas causas, mas tudo isso dentro de uma ordem. Quando você está
com raiva, existe uma causa para isso, portanto existe uma ordem. Isso não
significa que seja bom sentir raiva. Mas é a apreciação
de sua raiva que está dentro da ordem. Existe ordem quando você
entende a raiva. Você é parte da ordem quando você supera
aquela raiva, porque onde há a desordem há a possibilidade de
uma ordem. Isso é o que se chama ordem maior. Todas as situações
psicológicas não são nada mais do que ordem. Tudo o que
você precisa fazer é encontrar a real causa das situações
que causam desordem, como a frustração, tristeza, etc e então
você estará entendendo a ordem. Quando você pergunta qual
é o propósito da minha vida? Eu digo entenda a ordem
e então, logo depois, todo o propósito se cumpre.
Não há nada fora da ordem.
Tudo está dentro da ordem. Todos os princípios de certas coisas
como a teoria quântica, a termodinâmica ou entropia estão
todas na ordem. Mesmo a entropia que move as coisas da ordem para a desordem
também faz parte da ordem. É por isso que se podem fazer leis.
Em nossa vida, no dia a dia, em nossas relações diárias
há uma ordem. Uma determinada pessoa se comporta de uma determinada
forma porque tem uma bagagem própria. Portanto, um criminoso, de certa
forma, não é um criminoso. Quando uma pessoa comete um crime,
ela iguala-se em peso à ordem, mas se essa pessoa tivesse um passado
diferente talvez não cometesse crime algum. Mesmo se alguém
lhe causa algum dano, quando você conhece os antigos problemas dessa
pessoa e seu passado adverso, você pode entender as limitações
dela e esquecer sua mágoa. Isso faz parte da ordem. Somente quando
entende a ordem, você pode se livrar da dor causada por aquela pessoa.
Enquanto você ficar desejando se vingar você não estará
livre da dor. Nós também somos abençoados com a habilidade
de colocar coisas na ordem certa. Então eu como posso saber qual é
a ordem certa? Primeiro, eu reconheço o Senhor na forma de conhecimento.
Conhecimento está na forma de ordem. Eu não me debato contra
a ordem. Então você se vê relacionado com Isvara porque
Isvara é objetividade. Isvara é a ordem. Quando eu não
ofereço resistência às regras de Isvara, à presença
de Isvara, eu me relaciono com Isvara. Não há resistência
de minha parte quando eu revelo que o Senhor governa tudo, fora e também
dentro. Quando eu descubro o Senhor dentro e através de todas as coisas,
a diferença entre eu, Jagat-criação e Isvara se torna
mínima e desaparece. Tudo isso ocorre no despertar do conhecimento.
Portanto, estar consciente de Isvara é, essencialmente, relacionar-se
com Isvara.
Swami Dayananda Saraswati